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Arquivo para Dezembro 5, 2007

Filme que se engole a seco

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Não há nada com mais frescor, nas salas de cinema. Você respira o melhor do Dogma nórdico, do noir asiático, em um só filme. 4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias tem marca de antologia e tem provocado discussões políticas.

O filme do novato Cristian Mungiu já coleciona prêmios e está só na metade do percurso até o Oscar de melhor filme em língua não-inglesa. Semana passada, venceu o quase-badalado European Film Awards, depois de desbancar mestres, com a Palma de Ouro de Cannes, no meio do ano.

4 Meses… põe lupa na polêmica do aborto, escancara as feridas de uma discussão que não devia ser religiosa, mas que também mostra uma visão humanista que só confunde. Ali, frente a frente, sem música ou edição, você vê o feto e vê a destruição da gestante. Você se percebe vítima de algo maior.

Mas o filme de Mungiu bateu forte mesmo, naquilo que ele se propoz como arte, com a discussão de pano de fundo. Você nota a mesquinharia de uma conversa de jantar, quando a personagem principal está desligada de todos a sua volta. Da mesma forma que ela passa minutos àquela mesa, com o pensamento na situação da amiga grávida, também ficamos absurtos e passamos a acreditar na heroína torta da magnífica atriz romena Anamaria Marinca. Tudo isso, em câmera estática, sem cortes, sem facilidades para o espectador.

Esse é o tipo do filme que se engole a seco, que é preciso ser difundido, obra seminal desse início de milênio, novo fôlego para o cinema da Europa Oriental. Não se sabe onde a carreira de Mungiu vai parar ou se a relevância dessa obra servirá de catapulta para essa escola, mas fico com a sensação de honestidade no ar. Acho que posso chamar isso de cinema autoral, ainda que seja num blog qualquer.

4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias (4 luni, 3 saptamani si 2 zile)
Sem palavras:■■■■■■■■■■

“Cinema de arte” pode ser sinônimo de filme bom

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A definição de “filme de Oscar” é um tanto ultrapassada e cansativa e outro tanto baseada em epopéias e adaptações literárias. Já a expressão “filme de época”, então, parece-me sinônimo de pretensão, hoje em dia. Mas ainda temos grandes cineastas que encaram esse paradóxico: o de criar, sem acertar no tom fake dos espartilhos e tamancos, da capa-e-espada e do rebuscado dos filtros de imagem.

Desejo e Reparação (Atonement), que tem estréia no Brasil programada para 15 de fevereiro e que passa no FIC de Brasília, nasce da linhagem quase enfadonha do cinema inglês, bem próxima do excesso de fleuma da filmografia de um James Ivory, no exemplo mais recente que vislumbra o chamado cinema “de arte”, outra besteira que a crítica já aboliu.

Porque sabemos que mesmo o lendário David Lean já tinha caído nas armadilhas da suntuosidade britânica. Mas sabemos também que desse cinema, o requinte foi posto à prova, com momentos do mais belo planos de filmagem e edição, como no contraste de sombra e luz de A Passagem para a Índia, dos closes mais imponentes de Peter O’Toole, em Lawrence das Arábias (pra citar obras do gênio Lean), ou mesmo nas melhores direções de atores, como no “duelo do livro”, das mais asfixiantes cenas de amor já filmadas, com Anthony Hopkins e Emma Thompson fazendo história, em Howards End (de Ivory).

Feito justiça ao arriscado cinema inglês, já terei adiantado minha leitura de Desejo e Reparação, de Joe Wright, das principais apostas do Oscar, exatamente por ser tão Lean e Ivory, no jeito de jogar pra vencer, e que tem momentos gigantes de feitura da arte, exatamente como na postura desses dois britânicos de marca maior.

O arcabolço é totalmente Oscar, pela obra ser baseada na novela de Ian McEwan, com adaptação do caríssimo Christopher Hampton, por ser “de época”, com a 2ª Guerra como pano de fundo, e com Vanessa Redgrave, em ponta.

Claro que Oscar não é sinônimo de qualidade – muito pelo contrário, o que só gera desconfiança. Só acredito em filmes que fogem a essa pretensão, mas devo admitir que o prêmio reconduz a indústria, ainda hoje, principalmente em referência ao cinema mais autoral.

De resto, Desejo e Reparação é um apelo muito melhor que o Orgulho e Preconceito, filme anterior do mesmo diretor e com a mesma atriz principal, Keira Knightley. O novo trabalho de Wright tem uma primeira parte que lembra da tensão dramática de David Lean, o que não se vê, nas cenas do front de guerra, meio Senhor dos Anéis (ou digitalizadas demais).

Mesmo com a decaída, tem-se um dos melhores momentos do cinema, em 2007. Tem-se o lado bom do cinema inglês.

Desejo e Reparação (Atonement)
Sem palavras:■■■■■■■■■□